Mas não vejo essa pressão sempre como negativa. É claro que num mundo contemporâneo tudo tem prós e contras. Atualmente vemos uma movimentação do empresariado brasileiro em função da reforma tributária e também da trabalhista. A reforma tributária é realmente imprescindível para que o País se desenvolva e a trabalhista… Essa pode fazer com que os trabalhadores percam alguns direitos. Mas isso é outro assunto. Encargos trabalhistas menores geram mais empregos, assim como tributos menores podem fazer com que o dinheiro circule mais, aumentando assim a renda do trabalhador, o poder aquisitivo do cidadão e conseqüentemente movimentando e aquecendo a economia do País.
Incoerência contemporânea
Observo uma certa incoerência na contemporaneidade. Ao mesmo tempo que o privado torna-se soberano, mais poderoso que o público. O privado também perde seu espaço dentro da sociedade, enquanto indivíduo. A vida particular ganha cada dia mais espaço na mídia, a população está completamente preocupada com a vida privada. É o “cosmo-provincianismo”, como disse Euclídes Guimarães em uma de suas aulas.
Vivemos numa sociedade de privatização do público e, ao mesmo tempo, numa sociedade sinótica, onde todos podem vigiar cada um, comprometendo nossa privacidade. E uma dos meios que refletem bem essa questão é a mídia. Quantas revistas de fofocas pode-se encontrar no mercado editorial? Quantos programas de fofocas existem na televisão? Vários. E o mais interessante é que as pessoas comentam isso nas ruas, a vida do outro, do artista é motivo de interesse e conversas entre os “meros mortais”. É a completa possessão da vida do outro, mas do outro distante e não somente do vizinho de frente. Aquilo que antes era somente a “fofoca da vizinha”, hoje ultrapassa as fronteiras reais e virtuais da sociedade.
Para exemplificar como a população se apodera da vida do outro, principalmente do outro que tem visibilidade pela mídia, vou relatar um fato antigo: a escova definitiva da jornalista Fátima Bernardes. O resultado desastroso da mudança do visual acabou sendo pauta de revistas, programas e principalmente das pessoas nas ruas que consumiram a informação. Um dia, indo para o trabalho de ônibus, ouvi a conversa de duas mulheres. Durante todo o trajeto, o papo girou em torno do cabelo da âncora do jornal Nacional. O que aquelas pessoas tinham a ver com o cabelo da jornalista? Nada, mas a mídia através da invasão do privado fez com que a vida do outro fosse exposta e motivo para ser comentada por todos.
O mesmo fato aconteceu com o começo, meio e fim do casamento de Ronaldinho e Daniela Cicarelli. Todos os momentos do casal foram motivo de cliques e suposições dos repórteres, sendo estampados em capas de jornais e revistas. O cúmulo da invasão nesse caso é quando o caderno de esportes do Estado de Minas dedica espaço ao relacionamento dos dois. O fim do caderno passa a ser meio, ou seja, o que era um espaço para informar sobre o mundo esportivo passa a ser meio de falar sobre a vida privada da personalidade.
A curiosidade das pessoas, muitas vezes disseminadas pelos meios de comunicação de massa, faz com que idéias como o Big Brother virem mania mundial. Todas as edições do programa, na versão brasileira, mobilizaram milhares de pessoas em torno de votações e julgamentos sobre os comportamentos dos participantes. Atire a primeira pedra àquele que nunca ouviu um amigo comentando sobre as situações ocorridas dentro da casa “de vidro”. Eu, particularmente, não compreendo como este tipo de programa consegue tantos adeptos. São os que querem virar celebridade e os que fazem com que essas pessoas virem celebridades. No entanto, numa sociedade em que a individualidade/privacidade torna-se uma mera questão insignificante, não é de se estranhar tal comportamento.
De certa forma, este tipo de programa dissemina “cultura”, estilo de vida. São mulheres e homens de diferentes camadas sociais, com corpos esculturais e às vezes com opções sexuais que podem criar polêmica. E isso entra nas casas das pessoas, fazendo com que eles façam parte da vida delas. Mas não é somente o BBB que faz isso, as novelas, os programas de televisão, os telejornais. Quem não conhece alguém que já respondeu o “boa noite” de um âncora de jornal? A mídia, principalmente a televisiva, faz parecer que aquelas pessoas que estão atuando, apresentando ou simplesmente aparecendo ali na televisão, virem pessoas da família, dando o direito a elas de se intrometerem, opinarem e saberem sobre suas vidas pessoais. Assim justifica-se a ação dos paparazzi.
Segurança
A questão da invasão da privacidade pode ser vista também do ponto de vista de segurança. O aumento da violência fez surgir o monitoramento das ações através da câmera de TV. Os indivíduos são constantemente filmados em suas ações, seja dentro de prédios, bancos, supermercados, casas noturnas e agora, inclusive nas ruas. A busca pela diminuição da criminalidade fez com que a sua vida vigiada seja encarada como normal. Ninguém se sente incomodado com isso.
Então surge a pergunta: onde começa o público e termina o privado e onde começa o privado e termina o público. Neste mundo contemporâneo vejo uma mistura dos dois e uma dificuldade de delimitar cada um. Na verdade os dois se mesclam, de acordo com os interesses públicos e privados. Observo uma decadência do público e uma ascensão do privado.
O privado tem as rédeas do poder público, podendo em várias situações, como já foi exposto anteriormente, manipular o público de acordo com os seus interesses. É o público privatizado. E o privado se torna público enquanto indivíduo.
Perdeu-se a noção de um e de outro. As pessoas têm suas vidas invadidas para tornarem-se públicas e os órgãos públicos vivem em função de interesses e lobbies de empresas privadas. Vivemos a era da soberania do privado e ao mesmo tempo da perda da vida privada para a vida pública, de interesse mundial.