Fabyana Assunção

Experiências

30 30UTC janeiro 30UTC 2008

É estranho estar de volta ao Brasil. Conhecer a África do Sul me fez querer mais da vida e ver o mundo com outros olhos. De certa forma, mostrou-me o quanto a Terra é grande e quantas coisas a gente pode aprender. Durante muitos dias ainda vivi como se minha vida estivesse lá e com as lembranças, o organismo funcionava nos horários de Cape Town. Passei dias dormindo muito pouco mesmo. No entanto, mais do que o organismo era a minha cabeça que tinha mudado.

Eu havia passado 35 dias fora de casa e sobrevivi. Mais do que isso: aprendi. Aprendi muito de um país, de uma cultura e até mesmo de outras, uma vez que convivi com diferentes nacionalidades. Conheci lugares maravilhosos e tive uma vida que jamais tive no meu país. Morei num lugar com diversas pessoas e em pouco tempo elas se tornaram minhas melhores amigas. Compartilhamos comida, sofá e histórias. Muitas que ficarão guardadas para sempre dentro de mim. Algumas engraçadas, outras nem tanto. Mas todas ricas em importância.

Fiz amigos, amigos que talvez eu nunca mais os verei, mas que foram meus melhores amigos naquele momento. Amigos que manterei contato por um tempo, outros que serão para a vida toda. Mas, que com certeza, independentemente do que aconteça, sempre lembrarei.

Passar cinco semanas fora do país acabou sendo pouco pelo que descobri que posso viver. É claro que, em pouco tempo, vivi somente a melhor parte, mas neste tempo pude perceber o quão importante é ter experiências novas. Além disso, os nossos horizontes se ampliam.

Quando decidi jogar tudo para o alto e ir para a África do Sul, muitas pessoas me acharam maluca. Vender o carro, sair do emprego para ficar apenas cinco semanas e voltar. Hoje eu vejo que o tempo foi curto, mas não me arrependo de nada do que fiz, pois foi a melhor experiência da minha vida.

O mundo é enorme e lindo, cheio de coisas para serem descobertas. O ser humano é incrível, cada um a seu modo. Aprender a conviver com diferentes culturas nos faz ver como somos cheios de preconceitos. E estar fora do país abre nossas mentes para estas pequenas mesquinharias e sentimentos. Sei que não é todo mundo que consegue passar por esta experiência, pois cada um sente as diferenças de uma maneira. E nem todo mundo gostou do que viveu. Mas uma coisa é indiscutível: a gente volta diferente.

Hoje eu quero mais para mim. Eu quero conhecer mais lugares e culturas. Aprimorar ainda mais o inglês e aprender outras línguas. Eu quero simplesmente viver com mais intensidade e qualidade. Estou de volta à realidade, à procura de um emprego, porém mais confiante na vida. Não sei direito o que aconteceu comigo, mas voltei diferente. E quero o que todos na verdade querem: apenas ser feliz.

Cape Town - South Africa

De volta para casa

29 29UTC janeiro 29UTC 2008

Chegando em Johanesburgo, eu bem que tentei passar a noite em um hotel. Mas os preços das diárias me fizeram desistir da idéia, e enfrentar a maratona de cerca de 12 horas na cadeira do aeroporto. Confesso que não foi fácil ficar a noite no aeroporto, mas foi divertido. Ouvi os outros dialetos africanos, conversei com outras mulheres que também aguardavam vôo pela manhã, escrevi e cochilei.

Desta vez, vim sozinha no vôo e deu para esticar as pernas. O tempo foi gasto dormindo e comendo. O cansaço era muito. E eu ainda enfrentaria mais um vôo no Brasil. Ou seja, mais espera. Não tive como não passar no “duty free” e comprar mais algumas coisinhas. Arrependi por não ter comprado a Amarula na África ou no “duty free” do avião. Estava mais barata, mas comprei mesmo assim.

Saindo de lá, era hora de fazer o check-in para Belo Horizonte. Eu estava morta, não agüentava mais carregar tanto peso. Vale lembrar que paguei excesso de peso no Brasil. Sorte de quem mora em São Paulo. Para variar houve atraso no vôo, por causa da chuva. E quando cheguei na minha cidade ainda fui obrigada a presenciar uma briga entre taxistas e vim com raiva dentro do táxi e sem forças para brigar.

Fiquei com pena da minha mãe, que eu tava tão irritada e a fim de ver o motorista pelas costas, que nem a abracei quando cheguei. Mas me redimi depois. E, eu que pensei que não teria forças para tirar nada da mala quando entrasse dentro de casa… Puro engano, saí tirando as coisas de dentro das malas e entregando os presentes para ela. Ainda estava no gás total, cansada, mas acesa.

Era estranho estar de volta no meu quarto, dormindo na minha cama enorme, com colchão de mola e roupa de cama nova. Meu presente de Natal, um conjunto lindo para a minha cama. Um dia eu estava lá, numa residência estudantil. No outro, já estava na minha casa, no meu quarto. Durante 35 dias minha única preocupação foi ir para a aula e resolver qual seria a programação para o resto do dia. Agora eu estava de volta e precisava retomar minha vida e sair em busca de realização profissional em um bom emprego.


Minha cara de detonada no chão do aeroporto de Johanesburgo

Últimos momentos

28 28UTC janeiro 28UTC 2008

Chegou a sexta-feira, dia 28. Quando fiquei sabendo que ficaria uma semana a mais lá por não encontrar vôo de volta, pensei: nossa, que ruim! Depois achei que aquilo aconteceu por algum motivo. E quando cheguei lá, vi que foi a melhor coisa. No entanto, por mais que eu quisesse que demorasse, o dia havia chegado.

Acordei cedo do mesmo jeito. Mesmo tendo saído no dia anterior e não ter dormido quase nada. Parece que eu queria aproveitar o máximo de tempo possível. Encontrei a Mari na cozinha, tomei café e fomos para o Waterfront. Lá, nos separamos para que cada uma pudesse comprar e olhar o que quisesse. Comprei um fichário para fazer meu álbum de Cape Town, fiz uma pesquisa enorme sobre os copos de shot e acabei comprando por um bom preço. E não resisti e comprei o porta-moeda de couro de avestruz. Na verdade, ficou faltando alguma coisa que eu queria ter comprado para relembrar a viagem… Quem sabe volto lá antes do que imagino?

Encontrei a Mari e almoçamos no Ocean Basket. Meu último almoço lá tinha que ser onde encontrei a melhor comida. Depois disso fui trocar os vats. Meia hora na fila. E ainda fiquei sabendo que teria que fazer a troca em Johanesburgo, uma vez que passaria a noite por lá. Teria que colocar tudo na bagagem de mão. Ou seja, teria que modificar toda a minha bagagem, que já estava pronta. A sorte é que iria vestida com quase tudo que comprei.

No caminho para a estação, o Vitor me liga e pergunta se queria que ele me esperasse para ir para o YMCA. E disse que uma galerinha estava indo para lá. E acabei encontrando eles no caminho. Fiquei feliz. E na porta da escola, estava a galera toda, e a última vez que vi a maioria das pessoas. Antes de ir embora, ainda comprei um boné de lá. O Ricardo foi quem me fez companhia e ainda me ajudou com as malas.

Fui para o YMCA, tomei banho, acabei de arrumar as coisas e me juntei ao povo. Ri muito com os comentários da noite anterior. E já estava na hora de ir para o aeroporto. Despedi-me do povo e senti o quanto eu queria muito ficar ali com eles, e aproveitar a vida mais um pouco. Mas, a realidade estava próxima. E o Fernando e o Júnior ainda chegaram bem na hora, para me despedir deles.

Quando cheguei no aeroporto, percebi o quanto fui burra. Era muito perto. Podia ter ficado com a galera pelo menos mais duas horas. Mas, não tinha mais jeito. Entrei para a sala de espera e liguei para casa. A Joana, outra amiga linda que conheci lá, me ligou querendo saber o que iríamos fazer. Bem, eu não iria fazer tnada. E mais uma vez chorei por estar indo embora. Aproveitei e comprei um livro e o jornal e fiquei na espera. Só que o sono era muito.

Eu dormi o vôo todo, afinal de contas a noite anterior foi de farra, despedida e emoções fortes. Depois disso, foram cerca de 12 horas no aeroporto de Johanesburgo (já tem um texto sobre isso) e atravessar o oceano de volta para o Brasil.

Surpresas

27 27UTC janeiro 27UTC 2008

Quinta-feira, 27 de dezembro. Meu penúltimo dia em Cape Town. Como o tempo havia passado rápido! Só então percebi que não queria voltar. Mas não dava mais tempo para olhar qualquer coisa. Precisaria de um lugar para ficar e dinheiro. O jeito era aproveitar da melhor forma os meus últimos dias.

Para início de conversa, acordei super cedo. Tentei dormir de novo e não consegui. Então resolvi arrumar minhas malas. Até que deu a hora do povo se preparar para ir para a aula. Todos saíram e fui me arrumar para o último dia. Na hora combinada, fui chamar o Bernardo, que estava dormindo ainda. Então esperei mais um pouco e saímos. Passei na internet café para baixar as fotos e navegar um pouco.

O destino da manhã era o District Six, um lugar que reflete bem o que aconteceu durante o apartheid na África do Sul. Depois de pedirmos algumas informações, finalmente chegamos ao museu. Um lugar que mostra realmente como aquilo é carregado até hoje. Na minha opinião, o apartheid não acabou, só mudou de lado. O racismo e as marcas são fortes no país. Até o Bernardo comentou como o lugar era carregado de uma energia forte. De lá, passei no Market Square para procurar os copos e não achei, então fomos para a escola esperar o povo.

Lá avisei à galera que estava indo para o Cubana para fazer minha despedida. Até então, eu só sabia que eu e a Mari iríamos. Acabada a aula, fomos comer pizza e o destino era Muzemberg, uma praia que o Fernando havia lido que era interessante visitar. Pegamos o trem e fomos: eu, ele, Tarsila e Harumi. Até a estação do lugar era bonita.

Na volta para o YMCA era hora de saber quem iria, para marcarmos o táxi. E mais uma novela. Mas antes disso, fiquei um tempão conversando com a Juliana e a Mari (coisas de mulher). Até que o povo me chamou no meu quarto e vi que tinha que correr para me aprontar. As horas passavam super rápido mesmo.

Fiquei surpresa com as pessoas que foram. E feliz. Percebi o carinho que o Tobi tinha por mim e como a gente conversou durante o tempo que estive lá. E como todos que estavam ali faziam parte da minha vida. E como iria sentir falta de cada um deles. Foram cinco semanas dividindo o mesmo teto, fazendo os mesmos passeios, ajudando e sendo ajudado. Era como se fosse uma família de diferentes partes do mundo, com diferentes culturas. E chorei. Chorei porque iria sentir falta de cada um, porque percebi que não queria voltar, porque há muito não me sentia tão feliz.

Lembro-me do Fernando me dizendo para levar as coisas boas para o Brasil e aprender com as ruins. Mas, sinceramente, não tenho nada de ruim desta viagem. Imprevistos acontecem, o medo esteve presente em algumas situações, mas foi tudo muito perfeito. Já o Tobi, quando me viu chorando, somente disse para eu pensar que ainda estava lá. E foi me pagando bebidas. Esta foi a primeira vez que fiquei realmente bêbada na minha vida. O dia que mais bebi: duas garrafas e meia de Smirnoff Spin (a última o Fernando bebeu, porque eu realmente não dava conta). Bem, não sou de beber, né?

Outra coisa que me comoveu, foi como as pessoas queriam me ajudar, ou queriam que algo acontecesse. Muitas eu havia acabado de conhecer e foi muito legal isso. Para variar, o taxista atrasou com a gente. E o povo querendo ir embora negociou um táxi. É importante dizer que uma coisa que eu estava querendo muito aconteceu.

Estação de Muzemberg

Uma parte da galera que foi para o Cubana

Castelo e montanha

25 25UTC janeiro 25UTC 2008

O dia 26 de dezembro amanheceu com nuvens no céu. E como eu imaginava, cobrindo a Table Mountain. Nossos planos tiveram realmente que ser modificados. Então o destino foi o Castle of Good Hope. Tomei o café da manhã. Na verdade, nem estava provida disso. Um supermercado seria bem importante. Combinei tudo na cozinha e fui para o meu quarto me arrumar.

Lá a Tarsila resolveu se juntar a nós. E quando desci, o Júnior e o Fernando já estavam me esperando. E eu na maior calma lá em cima. Já na estação, lembrei da Mari e liguei para ela, que foi nos encontrar. Estava tão acostumada com o lance de estar sempre esperando alguém, que quando vi o povo me esperando, esqueci de chamá-la. Mas me redimi.

O castelo é um dos lugares mais lindos. Ou melhor, é lindo também, porque tudo naquela cidade é de uma beleza sem limites. Vi cadeiras de 1790, peças desta época, uma pintura de Vasco da Gama (ainda acho que a chegada dos portugueses não fez bem para o país, mas tudo bem), um ônibus de madeira puxado por cavalos brancos, entrei em calabouços. Mas chegou uma hora que a fome apertou. E eu, com fome, não sou ninguém. O lugar era enorme, e sinceramente, quando eu voltar lá, terei que visitar o castelo de novo, porém melhor alimentada.

A essa altura, o Vítor já havia me ligado para saber o que estávamos fazendo e foi encontrar com a gente. E o Júnior, que estava passando mal, voltou para casa. Fomos almoçar. Nunca me senti tão feliz com isso! Almoçamos em um restaurante lindo no centro da cidade, no Market Square. Na verdade, comi um sanduíche e muito bom. Quando olhamos, a Table Mountain estava limpa de nuvens. O dono do restaurante ligou para lá e estava aberto. Resultado: corremos para a montanha.

Negociamos com o taxista e enfrentamos uma mega-fila para comprar a entrada do cable car. Desta vez eu não tirei foto com o ingresso não, afinal de contas já tinha conseguido essa façanha antes. Sorte do Fernando, que conseguiu na primeira tentativa. E, se não me engano, da Tarsila e da Mari também.

Caminhamos bastante pelo topo da montanha. E depois escolhemos uma rocha para sentar e acompanhar o pôr-do-sol. Perdi as contas de quantas fotos eu tirei. E lá ficamos um bom tempo. Até que todos decidiram acabar de dar a volta na montanha e ver o pôr-do-sol de outro ponto. Aliás, começou a fazer frio, assim que o sol abaixou um pouco. Mas valeu cada minuto lá em cima: a vista mais bonita que vi na vida, além do mais belo pôr-do-sol. Fora a sensação de liberdade e paz de espírito.

A volta para casa foi meio desastrosa. Nenhum taxista podia nos buscar, e o que ficou de nos pegar, quebrou o carro. Por fim, a Mari conseguiu chamar o Mô que rapidinho chegou lá. Como ninguém tinha nada para comer, e o supermercado já estava fechado (quase 10h da noite), pedimos pizza. E era tão pequena, que nem deu para matar a fome de todo mundo. Devíamos ter pedido duas…

Mas tivemos mais uma surpresa. Gente nova na residência, e para variar mais um brasileiro. Fiquei até tarde na cozinha batendo papo com ele, a Harumi e a Tarsila. E acertamos de ir ao District Six no dia seguinte pela manhã, enquanto o povo estivesse na aula.

Uma pequena parte da Table Moutain

O pôr-do-sol visto da Table Mountain

O Natal

24 24UTC janeiro 24UTC 2008

Como era de se esperar, todo mundo acordou tarde no dia 25 de dezembro. E conversa vai, conversa vem, decidimos ir para a praia. Como o metrô ia demorar, todo mundo resolveu almoçar primeiro. Eu comi umas frutinhas, já que não tinha mais nada para o almoço. E foi a galera para o metrô.

Quando chegamos na estação, estava tudo fechado. E achamos muito estranho. De tanto procurar encontramos uma porta destrancada e entramos. Este foi o momento fotos. Não demorou muito e o metrô passou. Na estação central, no quadro de horários havia um aviso mandando a gente ignorar as informações. E não havia ninguém trabalhando. Era um dia de tem de graça. Achei isso muito estranho mesmo.

A galera optou por Clifton 4th. O dia não estava dos melhores, mas dava para pegar uma praia. Não ventava muito e havia um mormaço. A praia era realmente muito bonita, mas novamente com água gelada. Assim que todos se ajeitaram, eu e a Mari saímos para uma caminhada pela praia. Eu, sinceramente, não agüento ficar deitada quarando no sol. Passamos a tarde lá e depois fomos comer alguma coisa no Lamed. Neste momento a turma se separou. Uma parte foi para o Café Caprice, em Camps Bay.

Na volta, negociamos uma van para nos levar até o Observatory. Mas não era o dia do motorista. Na altura do Sea Point, ele pára a van em um posto de gasolina e é multado. Não entendemos nada. E a mulher que estava com ele, só falava em um dialeto africano. Piorou a situação, né? Depois ele saiu numa pressa, que a gente continuou sem entender e perto da residência ele ainda conseguiu bater e quebrar o retrovisor dele. Todo mundo estava vendo que não daria para passar os dois carros ali, e ele nem reduziu a velocidade. Mais prejuízo. A gente chegou no YMCA rindo, sem entender nada e era consenso: não era o dia dele.

Depois disso, nada melhor do que um banho e bater papo. Fui para o quarto da Mari. E me deparei com ela lavando roupa e com um perfeito varal por lá. Eu e a Juliana ficamos lá e eu aproveitei o secador da Jú para secar o meu cabelo. E assim o tempo passou. Ainda fiquei sabendo da dura que ela deu no Alejandro para lavar as vasilhas. Os meninos eram muito espertos, iam para a nossa cozinha fazer comida e deixavam tudo sujo para a gente lavar depois.

No dia seguinte, era feriado e tínhamos que pensar no que íamos fazer. O castelo era uma das opções, mas o desejo de todos era a Table Mountain. Então deixei mais ou menos combinado com o Fernando o passeio pela montanha, se o tempo ajudasse.

Na África, o dia 24 é um dia normal. O Natal é comemorado no dia 25, com almoço ou jantar, e o dia 26 é feriado. Para quem quer estudar, não é muita vantagem ir nesta época do ano, porque perde muita aula. Mas se o objetivo for passear…

A galera na praia

Esperando pela comida no Lamed, que por sinal estava péssima

 

24 de dezembro

23 23UTC janeiro 23UTC 2008

A minha última semana em Cape Town e totalmente livre de aulas. E bem na véspera de Natal. Eu havia combinado com o Fernando de andar na cidade. Eu precisava ir ao Market Square para ver se encontrava os copinhos de shot e depois a gente faria algum programa cultural, ou lojas, sei lá o que mais. Eu com medo de ficar sem companhia para andar, e ele se dispôs a matar aula no dia para ficar comigo.

Logo na cozinha no café da manhã, já tivemos agregados. A Harumi também não quis ir a aula e saiu com a gente. Pegamos o metrô e fomos para o centro. Vi lojas, precisei sacar mais dinheiro. Este fato merece destaque: até hoje não sei como o dinheiro saiu, pois não escolhi nem a quantia. Cada banco lá tinha um sistema diferente e depois de algumas tentativas frustradas, saiu um valor de 500 rands da máquina. Simplesmente não sei como.

É impressionante como os feirantes pegam a gente para vender o artesanato. Era tanta coisa que, se comprasse tudo, precisaria de um container. Comprei um jogo americano dos “Big six”, que na verdade eram seis pinturas de animais encontrados na África. O Fernando até comentou que eu precisaria casar logo, pela quantidade de coisa para casa que eu havia comprado. No caso específico do jogo americano, eu estava seguindo os passos da Mari, ou seja, já pensando realmente na minha futura casa. – Como eu estava pensando longe… sem emprego e já pensando em ter a minha casa! – Nisso, a vendedora oferece para ele, que espertamente solta que éramos casados. Olha só o que as pessoas falam para não comprar…
Umas duas barraquinhas à frente o sujeito me ofereceu uma máscara com uma família de elefantes miniatura. E eu acabei comprando. Tudo por 20 rands! Depois disso, caiu uma chuva torrencial, que não nos deixou andar por um bom tempo.

No meio da manhã, a Mari me ligou falando que a galera ia jantar no Waterfront para comemorar o natal. Conversei com a Harumi e com o Fernando, e a gente decidiu comprar as coisas e fazer na residência. Retornei para ela dizendo que eu não iria. E no meio do caminho a gente encontrou a Tarsila que se juntou a nós para a ceia de natal. Logo em seguida foi a vez do Vítor. Bem, nos separamos e uma parte ficou por conta de comprar as bebidas e a outra por conta de comprar a comida.

Antes eu tivesse ficado por conta da bebida. Eu e o Fernando fomos para o supermercado perto da escola, que estava lotado e não tinha quase opção nenhuma mais. Foi complicado encontrar um franguinho por lá. E queríamos muito uma farinha de mandioca, mas só encontramos mesmo para fazer bolo. Comprei chocolate também para a sobremesa.

Chegando ao YMCA acabamos com mais agregados ao jantar. E eu estava tão cansada por não ter dormido direito. Aliás, tirando a cochilada no sofá enquanto esperávamos pelo táxi da Sílvia, eu devo ter dormido umas duas ou três horas só. O Fernando me mandou dormir. E capotei mesmo. Se o povo não me chama, era capaz de emendar. Quando cheguei, o jantar já estava pronto.

Depois da ceia descemos para ver um filme: O senhor das armas. Só sei que ninguém viu o filme todo. Cada um dormiu para um canto. E assim foi a nossa noite de natal. Conversa, bebida e comida…

Uma pausa na ceia para tirar foto

Waterfront de novo

22 22UTC janeiro 22UTC 2008

Uma das coisas que aprendi em Cape Town é não confiar no tempo. Por mais que o sol estivesse quente, tinha sempre uma blusa de frio na mochila. E sempre usava. Mas o dia lindo de sábado, ficou esquecido com um domingo nublado. Boa parte da galera foi para o Cape Point, e quando acordei e vi o dia como estava fiquei até com pena.

Acordei mais tarde no domingo, coisa raríssima. No entanto, isso não significa qualidade de sono. O sono era sempre picado. Um horror! Uma coisa muito comum nos meus últimos dias na cidade era ficar batendo papo até tarde no meu quarto, no quarto de alguém ou na cozinha. E era sempre muito bom. Os assuntos giravam em torno de histórias de nossas vidas, nossas atitudes e personalidades, necessidades de mudanças (a Sílvia que o diga, como falamos disso!) até o nosso dia-a-dia, amores, paqueras na cidade, interesses. E o tempo passava sem a gente ver.

Mas voltando ao domingo, lá vai eu e Sílvia para o Waterfront. Ela precisava trocar os vats e fazer as últimas compras. Mas antes da gente sair, ela passou toda a bagagem dela para o meu quarto. E na hora de abrir o portão, minha chave não funcionava. Como tinha um outro hospede de lá saindo, aproveitamos o portão aberto e corremos. Uma burrice, na verdade! Como ela já havia liberado o quarto dela, era só a gente trocar a chave. Porque corríamos o risco de não entrarmos na volta, caso ninguém aparecesse. Mas eu ainda tinha o celular.

Pegamos o trem, caminhamos até o Waterfront e fizemos compras. Já que era a minha última semana, e eu tinha recorrido a mais dinheiro para a minha mãe. Vale salientar que o dinheiro era meu. Comprei uma bolsa vermelha para a minha mãe, que achei por acaso e resolvi trazer para ela de presente de natal. E comprei outra da Kippling para mim. Essa foi um parto, mas valeu pensar no assunto porque encontrei outra que fazia mais a minha cabeça e por um preço melhor.

A Sílvia havia gostado de uma bolsa da Guess. Ela largou a bolsa para olhar outra e uma outra mulher pegou e levou. Foi uma novela isso. Voltamos na loja mais uma três vezes para ver se encontrava a bolsa de novo. Conhecemos uma brasileira e uma portuguesa que nos levaram em outras lojas, mas nada da bolsa. Outro fato que só acontece na África. Na loja que comprei a bolsa da minha mãe, Edgars, tinha bolsa da Guess também. A que a Sílvia gostou estava sem preço. A mulher sumiu com a bolsa e quando reapareceu disse que não tinha outra, e não sabia o preço. Então não vende? Eu ri até e a Sílvia nem ficou muito feliz. “This is Africa”!

Passamos no supermercado para comprar algo para o jantar, pegamos um táxi e fomos embora. Para a nossa sorte, a galera do Cape Point estava chegando na mesma hora que a gente. E eu parecia uma doida dentro do táxi gritando para esperar, para não fechar o portão. E depois saí correndo, para ver se o quarto da Sílvia ainda estava aberto e com a chave para eu fazer a troca e poder me locomover na minha última semana. Tomei banho e fui para o outro bloco. Que estava lotado de gente.

E a noite foi gostosa. O povo comprou vinho. A gente viu a quantidade máscaras que o Luís comprou no Green Market. Até hoje fico pensando como ele virá para o Brasil com aquilo tudo. A Tarsila colocou um CD que ela havia comprado de cantores africanos. E batemos muitos papos. Dei algumas dicas para os novatos. E a missão do dia era ficar acordada, fazendo companhia para a Sílvia até às 4:00, quando o Carlos viria busca-la para levar para o aeroporto. Missão quase impossível. Os meninos ajudaram com as malas, que ficaram na sala de estar. E a Harumi e a Tarsila também foram guerreiras. Mas confesso, que chegou uma hora que eu dormi no sofá. Acordei com o Carlos telefonando e avisando que já estava na porta. E lá vai a gente com as malas. De qualquer forma foi legal. E o máximo de se estar em outro país é que todo mundo fica amigo muito rápido e há sempre gente para ajudar. Bem, com a partida da Sílvia meu dia chegou ao fim e era hora de dormir.

Uma pedaço do Waterfront

Kirstenbosch e praia

21 21UTC janeiro 21UTC 2008

O sábado estava com a programação feita: Kirstenbosch pela manhã e praia à tarde. O combinado foi o Carlos pegar a gente na porta da escola, já que não era só a galera do YMCA que iria. E o português do pai dele entendeu errado e foi parar na porta da residência. Resumindo: mais atraso.

Entrei na Clicks para comprar água e chocolate. Bem saudável a garota! Vale lembrar que era água com gosto de uva… Boa até!!! De repente, só vejo a mensagem da Mari no celular dizendo: “O Manoel estava esperando na YMCA para ir para o parque. Agora, depois de muita discussão, ele está indo para a Good Hope”. Dureza! O sujeito não dava uma dentro, depois não querem que a gente fale de português. Além disso, ainda apareceu com um carro só e teve que fazer duas viagens.

O pior de tudo é que quando ele chegou, ainda quis falar que estávamos errados. A resposta do Fernando foi ótima: “Todo mundo aqui, e foi a gente que confundiu o lugar?” Amei. Fui na segunda viagem, mas todo mundo esperou para entrarmos juntos. O Kirstenbosch é o jardim botânico de lá. Um lugar simplesmente divino e que transmitia muita paz. E como diz o Carlos, outro brasileiro que conheci por lá, o lugar é “awesome” (impressionante).

Foi um dos dias mais quentes em Cape Town. Acho que foi a primeira vez que realmente transpirei andando por lá. O único problema foi o chinelo. O lugar era enorme e lindo. E a gente podia andar o dia inteiro, bastava querer. Um tênis teria sido mais confortável. Mas não atrapalhou o passeio. Por mais que eu queira, é impossível descrever a beleza do lugar. Almoçamos no restaurante do jardim botânico mesmo (saiu meio caro) e seguimos para a praia. Mas antes, é claro que dei uma passadinha rápida pela lojinha de lá. Porém, não comprei nada. O tempo estava curto.

A praia em Cape Town é deitar na areia. Segunda vez em Camps Bay e segunda vez sem conseguir dar um mergulho no mar. Bem que tentei, mas a água era muito gelada. Ficamos lá o resto da tarde, mas a turma diminuiu. Um povo foi para o shopping, outro para o bar (não pode beber na praia) e acabou ficando somente eu, o Fernando e o Vítor. Até que o sol diminuiu e a gente foi atrás da galera.

Eles estavam em um bar exatamente na direção de onde estávamos. O lugar era lindo, mas jorrava água de todos os lados. Não sei como conseguiram ficar lá, pois eu não consegui. Até a mochila ensopou em poucos minutos… Então resolvi fazer minhas compras de supermercado e esperar o táxi. O dia estava chegando ao fim. E este foi o meu último sábado em Cape Town.

Last class

20 20UTC janeiro 20UTC 2008

Sexta-feira, 21 de dezembro. Finalmente chegou o meu último dia na escola. E para falar a verdade, eu estava triste. Isto significava que seria a última vez que eu veria boa parte das pessoas. E elas fizeram parte da minha vida durante as quatro semanas de curso. De qualquer forma, foram bons momentos vividos ali e muito aprendizado.

O intercâmbio com quatro semanas de aula me ajudou muito a relembrar o que aprendi nos meus 13 anos de estudos no Brasil, e mais: a conversação (achava que nem conseguiria mais falar em inglês), o listenning (que também foi ajudado pelos filmes alugados no YMCA) e o aumento de vocabulário. Há palavras que a gente só aprende mesmo com o dia-a-dia, com a vivência do idioma. Sei que posso esquecer muita coisa do que ouvi lá, mas farei o possível para que isso não aconteça e que com o tempo eu só possa melhorar cada vez mais.

Há uma tradição entre os alunos de levar algo para comer no último dia de aula. A intenção era levar um muffin para cada, mas não conseguimos comprar. Então, desci na Clicks, uma loja ao lado da escola, e comprei uma caixa de chocolate da Bélgica. E ele era bom. Mas meu último dia de aula não foi muito emocionante não. Uma professora alugou um filme, que não me lembro qual, e quase todas as turmas o assistiram. Tinha tanta cabeça na minha frente, que resolvi tirar fotos da Good Hope Studies e dos meus colegas de curso.

Terminada a aula, fomos para o Waterfront almoçar. Mais uma vez, no Ocean Basket. E a intenção era ir para a praia. O Fernando, que é de cidade litorânea, não via a hora de ver o mar. Mas a gente demorou tanto que ficou tarde. Então resolvemos passear mais pelo Waterfront.

Eu tenho problemas quanto a andar muito. E o que mais fiz nesta cidade foi andar e com mochila pesada nas costas. A esta altura do campeonato, eu já estava morta e a Sílvia mandando eu andar rápido. Primeiro, não tinha horário com nada. Segundo, eu sei o que os meus pés dão conta. Sobrou para o Fernando, que gentilmente pegou minha mochila e carregou-a por algum tempo. Mas como eu sempre sou daquelas que não gosta de abusar. O peso era meu, a responsabilidade era minha.

Hoje eu fico pensando para que correr. Estávamos de férias, estudando em um outro país. Está certo que nos mandaram ter cuidado, que lá era perigoso, mas nunca vi a necessidade de correr. Várias vezes eu dizia para a Sílvia: “neste teu passo você vai andar sozinha e eu também, porque não vou correr para te acompanhar”. Ela ria, diminuía e depois voltava ao ritmo normal dela. Ou seja, cada um tem seu ritmo. Deve ser porque ela é paulistana. E pensando nisso agora, vejo que na semana seguinte eu não tive necessidade de correr atrás de ninguém.

Depois de sentarmos e vermos um pouco da paisagem, voltamos e acho que pegamos um ônibus até a estação. Mas não estou bem certa. Mais tarde descobri que a Mari estava em Camps Bay e a gente bem que poderia ter ido para lá e visto o pôr-do-sol na praia. Mas a esta altura já estávamos em casa.

A semana havia terminado e a minha volta para o Brasil se aproximava. Neste momento percebi que eu não queria voltar, mas também não tinha mais tempo para arrumar qualquer coisa para continuar, isso sem contar no dinheiro para a permanência. O jeito era aproveitar o máximo os últimos dias que me restava.

Na verdade, estava apreensiva. Não sabia como seria minha última semana, já que estaria sozinha. A Andréa, que chegou comigo, voltaria no mesmo dia que eu, e tinha somente quatro semanas de aula, resolveu voltar antes. Assim, que ficaria sozinha na minha última semana. Estava me preparando para os programas na parte da manhã e pensava em encontrar o povo da escola depois da aula. No entanto, minha apreensão foi sem fundamento. Não fiquei sozinha um só dia.

Cindy (secretária da escola), eu e Aleja (spanish classmate)

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